sábado, 19 de março de 2011

#85 - Delir


São exatamente 19h19. Há pessoas na sala, conversas e cerveja. Sinto vontade de chorar. Chorar como da última vez. Meus olhos andaram se enchendo de lágrimas, mas eu não quero derramá-las. Vejo tudo conturbado, tento absorvê-las. Mandarei todas para dentro, como minha mãe me mandava entrar para casa quando estava tarde. Elas são desobedientes, qualquer música ou palavra errada faz elas voltarem. Acabo de apagar as luzes para esconder um rosto molhado. Não quero ninguém me perguntando o que anda acontecendo. Muito bem, eu não sei o que realmente acontece. As pessoas falam sobre o frio, sobre o amor e eu apenas guardo as minhas lágrimas.

Já tem muito tempo que eu sinto isso. Às vezes, é amenizado com o amor ou com amigos por perto. Mas eu sinto que estou perdendo tudo. Principalmente o amor.

É tão difícil explicar um sentimento, explicar com palavras apenas. Eu não me sinto completa. É catastrófico porque eu tenho o amor. Sim, eu tenho um amor, mas eu não sei se realmente posso tocá-lo. São como fases a serem atingidas. Fases que a cada erro, volta-se ao início. Quando eu fecho os olhos para confiar no amor, uma pedra me faz tropeçar e voltar a andar de olhos abertos. O amor não me deixa confiar.

Às vezes eu sinto que a minha presença o incomoda. E o seu silêncio me incomoda, o sentimento que isso me causa também incomoda. Faço silêncio apenas para ver se ele vai me pedir para voltar a falar. Às vezes isso acontece.

Sinto que não tenho mais o amor dele, mesmo ouvindo o contrário. Aquele sorriso não é mais meu. Aqueles abraços não são mais meus. Não por muito tempo. E como isso machuca. O pior de tudo é que ele acha que está me perdendo, mas não está. Ah, como o amo. Será que ele sente o mesmo? Medo de me perder? O medo de acordar e saber que não foi real. Será que ele realmente quer me perder?

Nunca tive tanto medo de palavras, medo de saber que são apenas palavras. Palavras ocas de sentimento. Irreais. Eu adoro as palavras, mas elas não me dão segurança.

Nunca tive tanto medo que o meu medo possa me tirar tudo o que eu tenho. Eu sei que esse sentimento pode levar o meu amor, pode me fazer perder a vida.

Eu deveria abandonar meus medos, amar incondicionalmente como sempre quis, mas não posso conseguir isso sozinha. Não posso. Não estou mais vendo o amor que eu havia visto ao meu redor. Torço muito para que ele esteja lá fora a minha espera.

É um inverno interior. Um inverno que não quer esvaecer. Às vezes me sinto quente e reconfortada, mas o inverno ainda está lá e eu o sinto quando abrem as portas.

Será que o amor me salvaria se eu fosse para o outro lado? Imagino uma morte proposital, apenas para sentir que eu vivia. Queria poder deixar um escrito, dizer que eu sentia todo o meu amor enquanto a vida me deixava. Queria saber quem ia chorar. Poucos chorariam, muito menos que isso me guardariam na lembrança. Alguns dias de comentários, algumas polêmicas em torno de tudo. Mas na verdade, uma única importância. Poder saber o quanto a minha ausência lhe causaria, só para ter a certeza que me amava.

Eu não tenho amigos, não mais. Tudo o que eu vejo é diferente, tudo. Muitas pessoas são legais, são em parte confiáveis. Uma é muito importante. Mas não são como eu queria. Preciso de uma única amizade e creio que ela não exista para mim. Nem sei se o amor é para mim. Não sei se a vida é para mim.

Queria poder pedir desculpas por tudo o que eu sinto, por tudo o que eu não controlo. Não quero perder o que importa, não quero perder o que eu amo. Não quero ser vista como ingrata. Quero abraçar todos muito forte e não ter que dizer mais nada.

Sinceramente, eu não sei o que acontece comigo. Não sei porque acontece comigo. Não consigo explicar o que há de errado. Não consigo dissipar todo esse sentimento. Eles não são de agora, não foram de ontem e não acabarão amanhã. Perdoem-me todos, mas é a verdade.

Agora, se quiser, pode segurar a minha mão ou apenas me atirar as pedras, até que tudo se apague. Peço apenas que respeite o meu silêncio. Enquanto choro.

4 comentários:

Vitor T. Freire disse...

"É um inverno interior. Um inverno que não quer esvaecer. Às vezes me sinto quente e reconfortada, mas o inverno ainda está lá e eu o sinto quando abrem as portas."

Algumas pessoas acreditam que os ciclos da natureza se repetem ao homem, porque ele também faz parte da natureza como um todo. É o que se chama de microcosmo e macrocosmo: o mesmo que acontece com as árvores no inverno ocorre com o homem; são coisas ciclícas e paralelas. "Aquilo que está acima é como aquilo que está abaixo" - já ouviu isso?

O Outono está chegando, e embora a gente viva num país de clima tropical, onde o clima não se manifesta como nos estereótipos do hemisfério norte (ou seja, as folhas ñ ficam alaranjadas e caem a torto e a direito nessa época), mas simbolicamente é onde a maioria das plantas perde suas folhas para armazenar nutrientes para o inverno - onde as condições de sobrevivência são mais duras. Como uma hibernação.

Também colhem-se alguns tipos de grãos nessa época. A colheita é feita pra armazenar comida para o inverno.

Dizem que nos homens, o outono e o inverno - a chamada "Parte Escura do Ano" - é o período no qual o homem deseja a Introspecção; Se recolhe ao seu eu, armazena todos os seus "nutrientes" dentro de si: conhecimentos adquiridos, experiências vividas, conceitos, memórias etc. tudo para se preparar melhor para o próximo ano que vier (macroscopicamente a primavera e o verão).

Ããh, é eu sei. Informação meio inútil, mas sei lá. Quis passar para você algo além de "bonito texto, torço por vc".

Se é ciclico eu não sei, e se coisas boas virão daí, também não sei (prefiro imaginar que sim). Mas enfim, é mais pra provar que eu estou sim, com você.

talvez não o que você mais precise, ou mais queira/necessite. Mas caso precise, queira ou necessie, bem... eu sou bom em dar jeito a várias coisas. Posso tentar.

...

ou não. saushau'

Abraços;

Dé Mattos disse...

Teus textos são sempre carregados de sentimento, é justamente por isso que gosto tanto daqui.
Eu não sei mto o que dizer. É difícil e creio que errado, tentar dar conselhos assim, por um blog. O faria com amor se estivesse perto e pudesse de fato segurar a sua mão.
Acho que tudo que posso dizer é que procures as mãos daqueles que são próximos a ti. E não pense que ninguém se importa, que ninguém te quer bem, que faltam amigos e um amor. As vezes a gente se fecha tanto na nossa tristeza que não percebe quantas pessoas maravilhosas tem por perto. Busque-as. Busque a si mesma. Busque suas razões para viver, suas utopias, sonhos, esperança. Renove aquilo em que acreditas.
E estenda as mãos tb!
Um beijo querida.

Dé Mattos disse...

Que maravilha acordar e ver um comentário tão lindo no meu blog. As vezes fico sem tempo para ele, mas nunca o abandono porque ele tem me dado a alegria de conhecer pessoas assim tão especiais como tu.
Obrigada, de verdade, pelas palavras. Tu é muito especial. De coração e alma repletos de emoção, sensibilidade e sentimento.
Adoro muito te ter sempre por aqui.
Um beijo grande e obrigada por alegrar a minha manhã de quinta-feira!

Lara Oliveira. disse...

Que maravilha de texto. Consegui viver a tua história por esses minutos em que o lia. Se estás indecisa sobre isso, dê um tempo pra tua cabeça, pro coração, vá viver mais pra você e depois vê no que dá tudo isso. Espero que tudo se resolva da melhor forma possível. Beijos